Cuidar sempre foi visto como um gesto natural das mulheres. Desde cedo, somos incentivadas a desenvolver empatia, sensibilidade e responsabilidade pelo bem-estar dos outros. É quase como se o cuidado fosse uma função biológica feminina.
Esse fenômeno é chamado de Feminização do cuidado. É uma atribuição histórica e social, e não é coincidência que seja, também, uma característica central em profissões da saúde.
O cuidado na área da saúde
Cerca de 70% dos profissionais da linha de frente da saúde são mulheres (Woman in Global Health), no entanto, a presença feminina não é apenas numérica, ela também molda práticas e culturas nessa área.
Um estudo publicado em 2025 na BMJ Global Health mostrou que ambientes com maior diversidade e liderança feminina tendem a apresentar:
- Maior atenção à escuta e ao vínculo com pacientes
- Práticas mais colaborativas
- Foco ampliado em bem-estar e humanização
A forma como muitas mulheres exercem o cuidado contribui para tornar a saúde mais humanizada.
Sobrecarga: quando o cuidado pesa
Mas existe um outro lado… Quando o cuidado é visto como algo “natural” às mulheres, ele deixa de ser valorizado como trabalho.
Muitas profissionais da saúde vivem uma dupla jornada: cuidado no trabalho, cuidado familiar e cuidado emocional com equipes e pacientes.
A elas é frequentemente atribuída a responsabilidade de sustentar ambientes, acolher conflitos, garantir o bem-estar coletivo, tarefas que nem sempre aparecem em descrições formais de cargo, mas que consomem tempo e energia.
A sobrecarga invisível do cuidado não impacta apenas a saúde mental das mulheres, mas também suas chances de progressão de carreira e reconhecimento profissional.
Cuidar pode ser potência, mas também pode se tornar peso quando não há divisão, estrutura e valorização.
O desafio: reconhecer sem naturalizar
O caminho não está em negar o cuidado, mas em reposicioná-lo. O cuidado não deve ser tratado como uma vocação feminina inevitável, e sim como uma competência profissional.
Quando o cuidado deixa de ser obrigação silenciosa e passa a ser competência reconhecida, ele deixa de sobrecarregar e passa a fortalecer.
Reconhecer a feminização do cuidado é um passo importante para transformar a forma como trabalhamos, lideramos e construímos ambientes mais justos na saúde.
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Leia o artigo completo aqui: https://doi.org/10.1136/bmjgh-2025-021163