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Cuidar também depende de acesso. E nem todas têm.

Eu escolhi a saúde. E a saúde pública me escolheu.

De guria à mulher, aprendi que cuidar não depende só de vontade, vocação ou conhecimento técnico. Depende de acesso. E talvez, com o peso da consciência social, essa seja uma das partes mais difíceis de encarar dentro da saúde e das próprias políticas públicas.

A gente aprende sobre prevenção, diagnóstico precoce e tratamentos eficazes. Mas, na prática, nem todas as mulheres conseguem chegar até isso. Não é por falta de interesse, é por falta de condições reais.

No Brasil, nós somos maioria dentro da saúde. Representamos cerca de 70% da força de trabalho no setor, segundo a Fundação Oswaldo Cruz. Estamos nos hospitais, nos laboratórios, nos plantões e nos cuidados invisíveis. Ainda assim, não ocupamos, na mesma proporção, os espaços de liderança. Muito menos vivemos um acesso pleno ao cuidado.

Quando olhamos para o Sistema Único de Saúde, fica evidente o quanto ele é essencial. Mas também fica evidente que o acesso ainda é atravessado por determinantes sociais como renda, tempo, território e informação.

Cuidar exige escolha.
Mas também exige possibilidade.

Quantas mulheres adiam consultas porque precisam trabalhar? Quantas deixam de cuidar da própria saúde porque estão cuidando de alguém? Quantas nem sabem por onde começar?

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, mulheres dedicam quase o dobro de horas ao cuidado não remunerado em comparação aos homens. Isso não é detalhe. Isso impacta diretamente no quanto essas mulheres conseguem se priorizar.

Carolina Maria de Jesus já escrevia, em sua vivência, sobre sobreviver antes de viver. E essa ideia atravessa o que ainda vemos hoje.

Para muitas mulheres, cuidar da própria saúde ainda vem depois de garantir o básico. Depois do trabalho, depois da casa, depois dos filhos, depois de tudo.

Dentro da saúde, a gente vê de perto o quanto isso impacta. Mulheres que chegam em estágios mais avançados de doenças evitáveis, que não conseguem manter acompanhamento contínuo ou que interrompem tratamentos no meio do caminho. E, muitas vezes, tudo isso sustentado por uma lógica silenciosa de que precisamos ser fortes, dar conta e suportar.

Mas a gente precisa nomear isso com mais clareza.

Isso não é só força.
É falta de acesso, é desigualdade.

Na prática, o cuidado não começa no consultório. Ele começa nas condições de vida, no contexto social e nas possibilidades reais de cada mulher.

Cuidar é essencial. Mas cuidar, de verdade, só acontece quando é possível acessar.

por Wendy Soares | Biomédica & Diretora de Marketing UWH


💙 Sobre a UWH

Na UWH, acreditamos que falar sobre mulheres na saúde também é olhar para as condições reais em que esse cuidado acontece. Porque fortalecer mulheres na saúde também é ampliar acesso, escuta e possibilidades.

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